Entrevista / Interview

Luciana Franzolin

http://www.LucianaFranzolinPhotography.com

1.      A fotografia e a imagem devem ser lidas como texto, analisadas e decodificadas?

Imagens e fotografias podem, mas nao nescessariamente devem, ser lidas analisadas e decodificadas. Uma fotografia pode simplesmente ser observada, apreciada. Na maioria dos casos, teorizar demais nao acrescenta as images sentido algum e o fotografo nao tinha nenhuma das intencoes levantadas pela analise no momento em que fotografou. Podemos apreciar imagens como quem observa a natureza, com a unica intencao de se maravilhar.

2.      Você procura, em suas fotos, descobrir um país ainda desconhecido?

Se voce se refere a um país desconhecido por mim, sim, claro. Diferentes povos, culturas e paisagens sao um prato cheio para fotografos em qualquer nivel. Mas nao acredito que precisamos ir a lugares remotos do planeta para tirar boas fotos e nos realizar como fotografos, ou fotojornalistas. O segredo esta em encontrar no universo que nos cerca as oportuninades para boas imagens. Um bom fotografo tira fotos maravilhosas dando uma volta do quarteirao. Sempre carregue a camera. 

3.      Você concorda com a afirmação que para ser um fotojornalista, hoje, é necessário ter conhecimento de economia e geopolítica e não somente um domínio técnico, para assim realizar um trabalho que retrate fielmente a realidade do local a ser explorado?

Sim, nao soh hoje como sempre. Um reporter fotografico ou fotojornalista deve ter as mesmas qualidades de um jornalista, a unica diferenca eh que ao inves de texto, usamos images. A etica, imparcialidade e conhecimento em relacao ao assunto sao imprescindiveis. 

4.      Quais são, geralmente, os protagonistas de suas fotos?

Tenho direcionado meus trabalhos mais recentes, como Senses, a questoes envolvendo direitos humanos em formato de documentario, mas fotografo desde o Outono no meu jardim a pessoas que nunca encontrei antes e nunca mais vou encontrar. Tem dias que saio para fotografar “azul”, ou “linhas” por exemplo.  O desenvolvimento do olhar requere pratica constante. 

5.      Quais são os elementos essenciais que constituem o fotojornalismo?

O fotojornalismo se diferencia de ramos proximos da fotografia, como documentario fotografico e street photography, pelas seguintes qualidades:

Imediatismo, Objetividade e Narrativa. Simplificando, o assunto deve ser recente; a situacao sugerida nas imagens deve ser uma representacao acurada e imparcial dos fatos em ambos, conteudo e tom; e as imagens, combinadas ao texto ou nao, devem ter o objetivo de relatar e informar o leitor em nivel cultural.

6.      É possível definir uma pessoa ou um povo em apenas uma imagem?

Sim ou nao, dependendo da habilidade do fotografo e de quais elementos estao presentes na imagem. O enquadramento aqui eh o elemento mais importante. Como fotojornalistas, buscamos sempre resumir em apenas uma, ou poucas imagens, o maior conteudo possivel de informacao. Criando ordem, nao caos. Num jornal nao temos espaco suficiente, na maioria dos casos, para publicar dez fotos, e o editor sempre espera aquela unica foto, que informa e ao mesmo tempo eh esteticamente atraente, para publicar na primeira pagina.

7.      Há sensacionalismo no fotojornalismo?

Sim, como ha sensacionalismo no jornalismo em geral. E aqui voltamos a etica e principios basicos do bom jornalismo, que se resumem a linha editorial do veiculo no caso do sensacionalismo, mas acredito que os principios de cada profissional tambem entram em jogo.  

8.      Qual foi, para você, o projeto de maior realização pessoal?

O projeto Senses, que virou livro (http://www.blurb.com/books/814022). Durante quarto meses fotografei na Inglaterra pessoas que sao surdocegas, isso mesmo, surdas e cegas ao mesmo tempo. Consegui dar ao projeto uma perspectiva otimista, apesar do conteudo dramatico, mostrando as terapias e meios que melhoram a qualidade de vida e ajudam surdocegos a se realizar como individuos. 

9.      Como é a relação entre o fotojornalista e empresa para que ele trabalha. Há liberdade na escolha dos trabalhos e nas imagens?

Num jornal, por exemplo, normalmente se trabalha tantas horas por dia e as pautas sao divididas entre os fotografos, sem muita preferencia. Ha pautas marcadas com antecedencia, como entrevistas e eventos, e ha coisas que acontecem sem previsao, como acidentes, enchentes, rebelioes, etc… 

Uma das caracteristicas de um bom fotojornalista eh a versatilidade, poder trabalhar em qualquer situacao. Me lembro de estar fotografando BB King na antiga Cervejaria dos Monges e ser chamada para cobrir um incendio no meio do show. 

Quanto a escolha das imagens, sempre tive a sorte de ter editores como o Quioshi Goto, do Jornal da Cidade de Bauru, que eh aberto a sugestoes dos fotografos e sempre teve uma sensibilidade impar, considerando o numero de imagens a escolher por dia. Nunca sofri nenhum tipo de censura, mas ja vi isso  acontecer com colegas em varios meios de comunicacao. Como freelancer a liberdade de escolha eh total, voce escolhe o projetos, se dedica a eles, e depois tenta publicar.

10.  Qual foi o projeto que deteve mais critica?

A critica, no meu ponto de vista, eh sempre construtiva, faz enxergar pontos e falhas e nos ajuda a crescer. No meu caso, bem no comecinho, me lembro de uma pauta sobre sadomasoquismo para o caderno Ser do JC. Fiz tanto carnaval: chamei uma drag queen, peguei chicote, mascaras e mordacas emprestados num sex shop, reservei um quarto num motel soh para fazer as fotos, levei todo o pessoal, equipamento de luz do jornal, e no final, as fotos eram quase todas impublicaveis. Hoje em dia, daria um angulo muito diferente as imagens, mais sensivel e discreto. 

No projeto Senses, tive um critico de plantao, o Alex, meu noivo, que tambem eh fotojornalista e me sugeriu o tema. A cada vez que viajava e chegava com as fotos ele reclamava do que via. Neste caso, apesar da decepcao, a critica me fez fotografar melhor. E no final, ele ria sozinho de tanto orgulho de mim. 

11.  Quais são as fotos geralmente de maior interesse do leitor?

As fotos da primeira pagina, acredito eu. Obviamente cada leitor vai direto aos cadernos que interessam mais, mas o que vende o jornal ou a revista eh a foto da primeira pagina e as manchetes. 

12.  Qual a diferença entre fotografar em preto e branco e colorido? Há uma mudança no impacto que a foto é capaz de gerar no público?

Na era digital, toda foto coloria pode ser convertida em preto e branco, maravilhosamente, mas fotografar em preto e branco eh o melhor modo de aprender contraste e luz. O segredo do olhar em PB eh descobrir que tom de cinza aquele vermelho ou verde vao ser. Quando se subtrai a cor, nao ha nada mais a se ver do que contraste e luz. Eu aprendi fotografia num laboratorio PB, lidando com filmes, quimicos, temperaturas e tempo de revelacao. Nada substitui a magica de ver a imagem surgir no papel em uma bandeja de Dektol recem preparado. Ainda se usa Dektol?  

Com relacao ao impacto, preto e branco revela mais testuras e confere as imagens uma caracteristica saudosista, antiga. O “feeling” do filme em PB eh muito maior que o digital. No filme, temos “graos”, cristais de prata, bonitos de se ver. Na foto digital, temos “noise” e pixels. Sao bem diferentes aos olhos treinados.

13.  O olhar do fotografo poderá vir a ser subjugado pela tecnologia da imagem?

Nunca! A melhor camera, as melhores lentes do mundo ou o Photoshop nao farao de ninguem melhores fotografos. Acredite! Pode-se tirar fotos maravilhosas com uma camera descartavel ou ateh com a camera do celular. Exemplos estao em todo lugar. Cartier Bresson usou uma camera e uma lente, 50mm, a vida toda. Um aspecto interessante no trabalho de Sebastiao Salgado eh que ele usa um equipamento bem basico: camera Leica manual 35mm e tres lentes apenas, uma 28mm, uma 35mm e uma 60mm. Ele tambem soh usa dois filmes: Kodak Tri-X e T-Max 3200 ISO. Desde que comecou a usar T-Max, Salgado nao usa flash nas fotografias. Eu fotografei Senses inteiramente sem flash. A beleza, definitivamente esta no olhar. 

14.  Como você vê a manipulação de imagem, hoje tão mais fácil e imperceptível? 

Manipulacao de imagens existe desde o inicio da fotografia. Muita gente associa Photoshop a manipulacao. O problema todo nao esta no Photoshop, esta nos principios de seus usuarios. Photoshop eh uma ferramenta nescessaria ao fotografo digital assim como o laboratorio eh para o fotografo 35mm. Sao inumeros os procedimentos possiveis no laboratorio para maior qualidade, contraste, durabilidade de uma revelacao. Quem nunca usou mascara para clarear ou escurecer parte da imagem? Isso era uma habilidade necessaria a todo laboratorista, em 1996, quando comecei a trabalhar com foto. 

Usar Photoshop mantendo em vista melhorar e nao manipular uma imagem nao gera problema algum. Manipulacao, na verdade, eh uma palavra bem negativa. Eu encaro o Photoshop como uma ferramenta para tornar imagens mais verossimeis em relacao a o que vemos. A camera digital tem qualidades tecnicas inferiores ao filme, ate o momento, em termos de densidade, e para tentar atingir o standard do filme eh preciso um pouquinho de Photoshop. 

No fotojornalismo, procedimentos aceitos sao: ajuste de contraste e saturacao, queimar, proteger e corte, ou enquadramento. Novamente, o que entra em questao sao os principios do profissional. Eu tenho as habilidades nescessarias para fazer o que quizer das minhas fotos, mas qual eh o meu interesse em faze-lo, considerando que o principio basico da minha profissao eh o compromisso com a verdade?  Eu sinceramente nao entendo todo o debate em relacao a manipulacao. 

Sobre você:

1.      Como surgiu a paixão por fotografia?

Decidi fazer Jornalismo porque gostava de escrever, mas quando tive fotojornalismo na faculdade (UNESP), mudei de ideia, descobri que a fotografia eh uma linguagem universal.

2.      Qual foi a sua primeira máquina fotográfica? Você a ganhou?

Minha primeira SLR foi uma Canon Ellan filme. Ganhei do meu pai, que alias foi meu “pai”trocinador em varios momentos depois. 

3.      Qual foi o seu primeiro emprego?

Laboratorista do JC, em 1996. Revelava e ampliava diariamente aproximadamente oito filmes de cada um dos fotografos talentosos que tiveram uma influencia imediata no meu modo de ver o mundo: Quioshi Goto, Joao Rosan, Su Stathopoulos, Aceituno Jr., Eder Azevedo e Malavolta Jr.  Dois anos depois, comecei a fotografar tambem.

4.      Em qual projeto você está trabalho no momento?

Depois de passar quarto meses fotografando Senses, estou desenvolvendo dois projetos na area de educacao. No Museum of London, em novembro e fevereiro vou lecionar em dois workshops: Capturing the City e Documenting London. Por conta disso estou fotografando Londres mais do que nunca. 

O outro eh com a Quintessentially Foundation, um instituto sem fins lucativos que desenvolve projetos de caridade no mundo todo. La criei um 

Workshop de “Light Grafitti” com um grupo criancas carentes na area do Soho em Londres, que esta em andamento. 

Pra conferir: 

Senses book: http://www.blurb.com/books/814022

Museum of London: (http://www.museumoflondon.org.uk/English/Learning/Adults/othercourses/digitalphotoraphy.htm

Quintessentially Foundation:

http://www.quintessentiallyfoundation.org/QuintessentiallyFoundation.swf

5.      Dê uma dica para aqueles que sonham em ser fotojornalistas?

Leia jornais! Visite os websites de agencias de noticias como a AFP (France Prsees), Reuters, AP (Associated Press), Getty Images. Conheca sua camera como se fosse uma parte do seu corpo. Pratique em situacoes de luz e climas variados, escuro, claro, chuva ou sol. Melhore o seu jeito de lidar com as pessoas, de se aproximar. 

1. Que tipo de curso você realiza em Londres?

Na London School of Photography, (www.lsptraining.com), leciono Fotografia para iniciantes, nivel intermediario, e ha tambem cursos avancados como o de Fotojornalismo e Documentario, e Fotografia Criativa.

2. Como é o contato com os alunos?

Bem informal, os grupos nao sao maiores do que 10 pessoas. Os cursos duram 2, 4 ou 8 dias seguidos, 6 horas por dia. Durante o treianemnto os alunos vao respirar, comer, dormir e sonhar fotografia. 

3. Nesses cursos os alunos já trabalham com fotografia ou estão começando nessa profissão?

A maioria dos alunos sao iniciantes querendo aperfeicoar o hobby. Hoje em dia todo mundo compra uma SLR mas nao tem a minima ideia de como usar e acaba fotografando soh no modo automatico. A faixa etaria varia de 15 a 83 anos. Serio! Nunca eh muito cedo ou muito tarde para aprender a fotografar.

Ha um grande numero de alunos que se torna professional depois do curso, em diferentes ramos da fotografia: casamento, retrato, stil life e moda. Ha alguns fotojornalistas. Ja dei aula para jornalistas querendo aprender a fotografar tambem, ou fotojornalistas mudando de filme para digital. 

4. É possivel passar além do técnico a paixão pela fotografia para os alunos?

Esse eh o meu maior objetivo e tambem a minha maior recompensa. A tecninca, qualquer um que estudar aprende. A paixao, o jeito de ver o mundo com olhos fotograficos eh o que mais importa em qualquer nivel. 

5. Como são realizados os cursos? A maior parte é em sala de aula ou em área externa?

Tentamos sair para a rua o maximo possivel, na neve, na chuva, nao tem tempo ruim. Os cursos sao 30% teoria, 70% pratica.

6. Qual foi o mais marcante para você?

O primeiro. Pedi emprego num dia e comecei a trabalhar no outro. Tive que preparar as aulas do dia seguinte durante a noite anterior. Da pra imaginar como foi.  

Interview
Luciana Franzolin
http://www.LucianaFranzolinPhotography.com

  1. Should photography and image be read as text, analyzed and decoded?
    Images and photographs can, but not necessarily must, be read, analyzed and decoded. A photograph can simply be observed, appreciated. In most cases, theorizing too much does not add any meaning to the images and the photographer had none of the intentions raised by the analysis at the moment he took the picture. We can appreciate images like someone observing nature, with the sole intention of being amazed.
  2. Do you seek, in your photos, to discover a still unknown country?
    If you refer to a country unknown to me, yes, of course. Different people, cultures and landscapes are a must for photographers at any level. But I don’t believe we need to go to remote places on the planet to take good pictures and realize ourselves as photographers, or photojournalists. The secret is to find in the universe around us the opportunities for good pictures. A good photographer takes wonderful pictures just by walking around the block. Always carry your camera.
  3. Do you agree with the statement that to be a photojournalist, today, it is necessary to have knowledge of economics and geopolitics, and not only technical knowledge, in order to produce a work that faithfully portrays the reality of the place to be explored?
    Yes, not only today, but also in the future. A photojournalist must have the same qualities as a journalist, the only difference is that instead of text, we use images. Ethics, impartiality and knowledge about the subject are a must.
  4. What are, generally, the protagonists of your photos?
    I have focused my recent work, like Senses, on human rights issues in a documentary format, but I photograph everything from the autumn in my garden to people I have never met before and never will again. Some days I go out to photograph “blue”, or “lines” for example. The development of the eye requires constant practice.
  5. What are the essential elements that make up photojournalism?
    Photojournalism differs from related branches of photography, such as documentary photography and street photography, by the following qualities:
    Immediacy, Objectivity, and Narrative. Simply put, the subject must be recent; the situation suggested in the images must be an accurate and impartial representation of the facts in both content and tone; and the images, combined with text or not, must have the purpose of reporting and informing the reader on a cultural level.
  6. Is it possible to define a person or a people in just one image?
    Yes or no, depending on the skill of the photographer and what elements are present in the image. The framing here is the most important element. As photojournalists, we always try to summarize in one, or a few images, as much information as possible. Creating order, not chaos. In a newspaper we don’t have enough space, in most cases, to publish ten photos, and the editor always waits for that one photo, that informs and at the same time is aesthetically attractive, to publish on the front page.
  7. Is there sensationalism in photojournalism?
    Yes, as there is sensationalism in journalism in general. And here we come back to the ethics and basic principles of good journalism, which can be summarized by the editorial line of the vehicle in the case of sensationalism, but I believe that the principles of each professional also come into play.
  8. What was, for you, the project of greatest personal achievement?
    The Senses project, which became a book (http://www.blurb.com/books/814022). For four months I photographed in England people who are deafblind, that’s right, deaf and blind at the same time. I managed to give the project an optimistic perspective, despite the dramatic content, by showing therapies and ways to improve the quality of life and help deafblind people realize themselves as individuals.
  9. What is the relationship between the photojournalist and the company he works for? Is there freedom in the choice of work and images?
    In a newspaper, for example, we usually work so many hours a day and the assignments are divided among the photographers, without much preference. There are assignments that are scheduled in advance, like interviews and events, and there are things that happen without foresight, like accidents, floods, riots, etc…
    One of the characteristics of a good photojournalist is versatility, to be able to work in any situation. I remember photographing BB King at the old Monks Brewery and being called to cover a fire in the middle of the show.
    As for the choice of images, I’ve always been lucky to have editors like Quioshi Goto, from Bauru’s Jornal da Cidade, who is open to suggestions from the photographers and always had a unique sensibility, considering the number of images to choose per day. I’ve never suffered any kind of censorship, but I’ve seen it happen with colleagues in several media. As a freelancer
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